Diferentes perspectivas revelam desafios e possibilidades na capital
Texto e edição: Hellen Reis
Em meio a festas, shows e eventos culturais, artistas e profissionais ligados à música discutem se Palmas já possui uma cena pop estruturada. Para quem trabalha diretamente com o gênero, a cidade reúne público interessado, mas ainda apresenta uma oferta considerada limitada de eventos, espaços e oportunidades para artistas locais.
A cantora pop Fernanda Hofmann afirma que não considera que exista atualmente uma cena pop consolidada na capital. Para ela, o gênero aparece principalmente dentro de uma movimentação cultural mais ampla, que reúne artistas e públicos ligados ao underground, ao alternativo e ao funk.

“Não acho que exista uma cena pop em Palmas, eu acredito que existe uma cena underground que se apoia muito e o pop se inclui aí”, afirma a cantora. Segundo ela, essa movimentação também aproxima diferentes públicos, especialmente pessoas LGBTQIAPN+ e mulheres.
O DJ Matheus Martins, que se apresenta sob o nome artístico DJ Decomposições, também avalia que a estrutura ainda é limitada. Para ele, o problema não se restringe ao gênero. A própria vida noturna da capital, segundo sua percepção, oferece menos opções quando comparada à de outras capitais.
“A cena noturna em Palmas, no geral, é muito fraca se comparada a outras capitais, o que faz com que o público que curte mais o pop não tenha muitas opções, ficando restrito ao que ainda está disponível de festas, shows e/ou “rolês”.

Apesar da avaliação sobre a estrutura disponível, os entrevistados apontam que existe público interessado. Fernanda considera que a procura pode ser percebida principalmente quando grandes artistas ligados ao universo pop chegam à cidade.
Um exemplo citado pela cantora é o Festival Gastronômico de Taquaruçu. Na edição de 20 anos do festival, em 2026, o festival incluiu uma atração associada diretamente ao pop contemporâneo: Marina Sena foi uma das principais atrações da terceira noite da programação e se apresentou para um público com forte presença de jovens, segundo a Prefeitura de Palmas.
Para Fernanda, a presença de grandes públicos nesses eventos demonstra que há demanda, mas também evidencia uma lacuna: artistas locais nem sempre são inseridos nessas programações.
“Eu não tenho artistas do pop tocantinense abrindo esses shows. Por quê? A gente vê que tem público, esse público está ali acampando, e não se aproveita a oportunidade para mostrar nossos artistas para eles”, questiona.
Onde o público se encontra
Embora não exista uma programação contínua dedicada exclusivamente ao gênero na capital, alguns estabelecimentos e formatos de eventos aparecem como pontos de encontro. Matheus cita festas realizadas em bares como Blackbird, Macondo e Tekoha, além de eventos específicos, como ballrooms e calouradas universitárias.
O DJ também lembra que a cidade já teve outros espaços que, segundo ele, contribuíram para uma movimentação maior, como Serreal, Lanterna e Cave.
Para Fernanda, iniciativas produzidas pelos próprios artistas também ajudam a preencher essa lacuna. Ela cita o Cover Nation como um dos eventos que regularmente trabalha com repertório de música pop.
A cantora também destaca experiências recentes em estabelecimentos da cidade. Segundo ela, o evento Pop Girls Night, realizado no Blackbird, teve lotação. Fernanda cita ainda a realização de eventos de música pop internacional no Tendencies Music Bar.
Essa percepção também aparece para quem consome o gênero na cidade. O Social Media e consumidor do gênero, Paulo César, afirma que os espaços são escassos e que isso limita as opções a poucos estabelecimentos que estão concentrados na região central.

“É bem escasso aqui, e ainda temos poucas opções. Essas alternativas acabam sendo sempre as mesmas e, em alguns casos, os estabelecimentos chegam a fechar por falta de público. Sem esses espaços, também fica difícil reunir diferentes públicos da cidade e ampliar o acesso a esse tipo de música”, afirmou.
Ainda de acordo com Paulo, os poucos estabelecimentos onde toca música pop estão concentrados na região central, o que dificulta o acesso de pessoas que gostam do gênero, mas moram em outras partes da cidade.
“Você não encontra esse tipo de espaço em outras áreas da cidade, como nas periferias, onde também existem pessoas que consomem esse tipo de música, mas que não têm o mesmo acesso a esses lugares. Esses espaços acabam ficando concentrados em determinadas regiões, o que limita o acesso de parte do público e dificulta que a música pop alcance diferentes áreas da cidade”, afirma.
Essas iniciativas, porém, ainda aparecem de forma pontual. Na avaliação de Matheus, a oferta costuma se concentrar em festas menores e com atrações limitadas.
“Existe demanda sim, mas a prefeitura e donos de casas de shows e boates acabam não investindo muito em fazer algo maior nesse quesito”, afirma o DJ.
Público existe, mas como encontrá-lo?
Um dos obstáculos apontados pelos entrevistados é a dificuldade de conectar quem produz com quem consome. Fernanda afirma que existe um público interessado em música pop na cidade, mas que muitas dessas pessoas não sabem quais artistas, DJs e eventos acompanhar.
A cantora utiliza a própria experiência nas redes sociais como exemplo. Segundo ela, conteúdos publicados no TikTok sobre música pop e produção local conseguem ultrapassar a audiência habitual e alcançar milhares de visualizações.
“Essas pessoas estão aí, estão procurando alguém que fale com elas na cidade delas”.
A experiência de Paulo também evidencia o papel das redes sociais na descoberta desses eventos. Segundo ele, o Instagram é o principal meio pelo qual toma conhecimento de artistas e programações relacionadas à música pop, embora considere que a divulgação poderia alcançar um público maior por meio de outros meios de comunicação.
“Eu costumo descobrir por meio das redes sociais, principalmente pelo Instagram, que é o que acaba chegando até mim. Mas ainda acho que falta uma divulgação que alcance mais pessoas, por exemplo, pela televisão. A gente não fica sabendo de muitos eventos que acontecem na cidade envolvendo música pop”.
Para ela, as redes sociais podem ser uma das principais ferramentas para aproximar artistas e público, especialmente entre os mais jovens. A dificuldade, nesse caso, não seria apenas criar eventos, mas também desenvolver estratégias para fazer com que essas iniciativas sejam encontradas por quem já possui interesse.
A avaliação encontra um ponto de convergência com a percepção de Matheus sobre a oferta de eventos. Para o DJ, a falta de atrações consideradas mais interessantes faz com que parte do público tenha poucas alternativas de entretenimento.
Um público concentrado
Outro aspecto levantado por Matheus é a concentração de determinados públicos nos eventos voltados à cultura pop. Segundo ele, a participação é predominantemente LGBTQIAPN+, o que pode contribuir para que empresários e produtores enxerguem essas festas como eventos de nicho.
“A cena pop acaba sendo bem nichada, e o público predominante é quase todo LGBTQIAPN+”, afirma.
Fernanda, por outro lado, destaca justamente a existência de grupos que encontram nesses eventos uma possibilidade de expressão e identificação. Para ela, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ têm participação importante nessa movimentação cultural.
A diferença entre as duas percepções revela uma das questões centrais sobre o mercado local: embora exista um público interessado, ainda não há uma estrutura permanente capaz de reunir artistas, DJs, produtores, estabelecimentos e consumidores em uma programação contínua.
Há espaço para crescer?
Os entrevistados apontam que a expansão depende de diferentes fatores. Entre eles estão investimento, divulgação, abertura de espaços e maior aproximação entre produtores e público.
Fernanda também identifica mudanças recentes. Segundo ela, iniciativas realizadas nos últimos meses indicam que o interesse começa a receber mais atenção de estabelecimentos e produtores.
Para a cantora, as redes sociais podem facilitar esse processo ao diminuir a distância entre artistas e público. Ela ressalta, entretanto, que a construção de uma estrutura mais sólida não acontece rapidamente.
O cenário, portanto, não apresenta uma resposta definitiva para a pergunta que dá título à reportagem. Há artistas, DJs, festas, espaços e um público que consome o gênero. Ao mesmo tempo, os relatos apontam que esses elementos ainda funcionam de maneira fragmentada, sem uma programação regular ou uma estrutura suficientemente consolidada para caracterizar, na avaliação dos entrevistados, uma cena organizada.
Enquanto novos eventos surgem e as redes sociais ampliam o alcance de artistas locais, Palmas segue reunindo os elementos que podem contribuir para a formação de uma cena pop, mas ainda enfrenta o desafio de transformar essas iniciativas e conexões em um movimento cultural mais estruturado.

