Evento reuniu diferentes gerações e reacendeu o debate sobre diversidade na programação cultural e acesso a grandes atrações nacionais.
Texto e edição: Hellen Reis
A cantora pop Marina Sena se apresentou no dia 5 de setembro, durante a programação do 20º Festival Gastronômico de Taquaruçu, em Palmas. A artista integrou a programação musical do evento, que também contou com atrações de diferentes gêneros. A apresentação reuniu um público interessado no trabalho da cantora e trouxe à discussão a relação dos moradores da capital com a música pop e a oferta de shows do gênero na cidade.
Para quem acompanha música pop, a apresentação representou mais do que uma atração em um festival. A jornalista e fã de Marina Sena, Karyne Assunção, de 23 anos, considera que a presença da cantora em Palmas mudou a relação que parte do público da região tem com grandes shows nacionais.

“Pra gente, nenhum show é dado”, afirma Karyne.
Segundo ela, fãs que vivem no Norte do país muitas vezes precisam viajar para outras regiões para acompanhar seus artistas favoritos. A jornalista conta que já enfrentou uma viagem de 34 horas de ônibus até São Paulo para assistir a um show.
A possibilidade de assistir Marina Sena gratuitamente e sem precisar deixar Palmas, segundo a jornalista, tornou a experiência ainda mais significativa.
“Ter a oportunidade de ver uma artista como a Marina sem precisar de tanta mobilização, acompanhada de amigos e ainda por cima de graça, foi uma experiência fora do comum”, relata.
Um público que responde
Durante o show, a reação das pessoas próximas ao palco também chamou a atenção da jornalista.
“Todo mundo próximo estava eufórico demais, foi a primeira vez que eu ouvi mais o grito dos outros do que os meus”, conta.
A percepção de Karyne é de que existe, na capital, um público interessado e disposto a consumir música pop. Para ela, Palmas também funciona como um ponto de encontro para moradores de cidades próximas, que encontram na capital uma alternativa mais acessível para acompanhar grandes artistas.
A avaliação encontra respaldo, ainda que por uma perspectiva diferente, na própria organização do Festival. A secretária municipal de Turismo, Ana Paula Setti Nogueira, afirma que a escolha das atrações para a edição comemorativa dos 20 anos buscou contemplar diferentes estilos musicais e públicos.

Nossa proposta foi trazer uma programação diversificada para celebrar os 20 anos do festival, contemplando diferentes estilos musicais e públicos”, explica Ana Paula.
Segundo ela, Marina Sena integrou a estratégia de ampliar as experiências oferecidas pelo evento, atrair visitantes e fortalecer Taquaruçu como destino turístico.
Mais público, mais espaço?
Se o público existe, outra questão aparece: há espaço suficiente para que diferentes gêneros musicais sejam apresentados na cidade?
Para o produtor cultural Carlos Daniel, conhecido como Carlão e atuante principalmente na cena do rap em Palmas, existe interesse do público por diferentes propostas musicais. Ele cita eventos de perfis distintos como o próprio Festival Gastronômico de Taquaruçu, o PMW Rock Festival e apresentações de artistas ligados ao rap, além de eventos universitários com funk e brega funk.

Na avaliação do produtor, entretanto, a existência de público não significa necessariamente que haja uma programação capaz de contemplar essa diversidade.
“Palmas tem público para tudo, mas não temos ‘palco’ para fomentar essas culturas”, afirma.
A experiência de Carlão parte de uma área diferente da música pop. É justamente essa atuação no rap que amplia a discussão: para ele, a questão não se restringe a um gênero específico, mas envolve a disponibilidade de espaços e oportunidades para diferentes manifestações musicais.
Ele também aponta que parte da programação dos grandes eventos realizados na cidade costuma se concentrar em determinados estilos. Como exemplo, cita o Capital da Fé, realizado durante o período de carnaval e dedicado à música gospel.
O que o show pode indicar
Para a secretária Ana Paula, a receptividade à apresentação da cantora pop é um dado que pode ser considerado nas próximas edições, mas não determina isoladamente as escolhas da programação.
“A receptividade do público é um sinal positivo e uma informação importante para avaliarmos as próximas edições”, afirma.
Segundo ela, a escolha das atrações também considera a proposta de cada evento, a diversidade musical e o perfil dos visitantes.
Para Carlão, a mobilização em torno do show demonstra que Palmas pode receber artistas de diferentes vertentes e que esse movimento pode ultrapassar o entretenimento.
“É um grande retorno cultural, dando mais visibilidade a vários artistas locais, além de fomentar o comércio daa cidade e o turismo”, avalia.
A apresentação de Marina Sena não responde sozinha se Palmas possui uma cena pop consolidada. Mas a reação do público mostra que existe interesse. O que permanece em aberto é se essa demanda pode se transformar em uma prgramação mais frequente, com espaço também para artistas nacionais de diferentes gêneros e para os nomes que já produzem música na própria cidade.

