Organizados principalmente pelas redes sociais, grupos de fãs passaram a produzir conteúdos, divulgar lançamentos e realizar ações que ampliam a presença dos artistas na cultura pop
Para Ingrid Camargo, de 28 anos, estudante de medicina, acompanhar o BTS faz parte de sua história há mais de uma década. Fã do grupo sul-coreano e integrante do ARMY, nome dado à comunidade de fãs do BTS, ela começou a acompanhar o grupo ainda jovem e foi crescendo enquanto continuava inserida naquele universo.

Ao longo dos anos, a relação com o grupo deixou de ser apenas sobre ouvir música.
“Comecei a acompanhar o BTS muito nova e fui me tornando adulta enquanto continuava inserida nesse universo, então sinto que o grupo acabou fazendo parte de diferentes fases da minha vida”, conta.
A experiência de Ingrid representa uma relação cada vez mais comum entre artistas e público na cultura pop. Com as redes sociais, os fãs ganharam espaço para não apenas acompanhar o trabalho de seus artistas favoritos, mas também produzir conteúdos, compartilhar informações, organizar ações e participar da divulgação de músicas e lançamentos.
Mais do que grupos de pessoas que têm o mesmo gosto musical, os fandoms também podem funcionar como espaços de identificação e pertencimento. Para o sociólogo Rodrigo Gomes, o envolvimento dos fãs acontece porque essas comunidades compartilham mais do que a admiração por um artista.
“O fã não compartilha apenas o gosto por um artista, mas também experiências, emoções e referências com outras pessoas. Essas comunidades permitem construir uma identidade coletiva e fazem com que o indivíduo se sinta parte de algo maior”, explica.
Quando o fã também participa
Nas redes sociais, essa relação ganhou uma nova dimensão. Os fãs passaram a ocupar um papel mais ativo na circulação dos conteúdos produzidos pelos artistas. No caso do BTS, Ingrid percebe essa mobilização principalmente durante os lançamentos.
“Os fãs criam trends, compartilham conteúdos, traduzem entrevistas, divulgam músicas e desenvolvem estratégias para aumentar a visibilidade dos trabalhos do BTS”, relata.
A organização também chega às plataformas de música. Segundo Ingrid, existem grupos e contas de fãs que estabelecem metas de streaming e produzem materiais explicativos para orientar outros integrantes do fandom sobre como utilizar cada plataforma.
Ela participa dessas ações principalmente durante novos lançamentos.
“Normalmente, contas e grupos de fãs estabelecem metas e organizam materiais explicativos para orientar quem quer participar. Os fãs acompanham os números, compartilham as metas, criam playlists e ajudam a divulgar as informações”, explica.
Para Rodrigo Gomes, esse comportamento mostra uma mudança importante no papel do público. O fã, que antes tinha uma participação mais limitada ao consumo dos produtos de um artista, passou a contribuir diretamente para sua circulação.
“As redes sociais tornaram essa relação mais participativa. O fã deixou de apenas receber conteúdos e passou a produzir, divulgar músicas e interagir diretamente com os artistas”, afirma.
Segundo o sociólogo, essa mudança também fez com que a circulação da cultura se tornasse menos dependente dos meios tradicionais de comunicação. Nas redes, os próprios usuários podem ajudar um conteúdo a alcançar outras pessoas, criando uma cadeia de compartilhamentos e interações.
Mobilização que vai além da música
A organização dos fandoms não se limita à divulgação de músicas. Ingrid conta que já participou de projetos de streaming, ações relacionadas aos aniversários dos integrantes do BTS e projetos beneficentes.
Essas iniciativas são organizadas pelos próprios fãs, que utilizam as redes sociais para divulgar informações, estabelecer metas e reunir participantes. Para Ingrid, a possibilidade de compartilhar essas experiências também faz parte do significado de ser ARMY.
“Para mim, o army pode ser uma comunidade acolhedora, porque reúne pessoas que compartilham interesses e conseguem entender o significado que o BTS tem para nós”, afirma.
Ela reconhece, no entanto, que as comunidades de fãs também enfrentam conflitos.
“Apesar de as redes sociais terem se tornado mais tóxicas e de existirem conflitos dentro do próprio fandom, eu ainda gosto de compartilhar minhas alegrias com pessoas com quem me identifico”, conta.
A relação construída ao longo dos anos também faz com que o fandom ultrapasse a ideia de simplesmente acompanhar um artista. Para Ingrid, músicas e momentos relacionados ao BTS estão ligados a memórias pessoais construídas durante diferentes fases de sua vida.
“Algumas músicas e momentos estão diretamente ligados a memórias que construí ao longo desses anos”, diz.
O fã como agente da cultura pop
A mudança no comportamento dos fãs também altera a própria forma como a cultura pop circula. Para Rodrigo, o público passou a ocupar um espaço mais ativo na construção da popularidade dos artistas.
“Toda essa transformação representa uma mudança no papel do público. O fã passou de consumidor a também produtor e agente de circulação cultural”, explica.
Nesse processo, os fãs não apenas ajudam a espalhar músicas e conteúdos, mas também participam da construção dos significados associados a determinado artista. A popularidade deixa de depender exclusivamente das estratégias oficiais das gravadoras, equipes e veículos de comunicação e passa a contar também com a atuação das comunidades de fãs.
Mas essa participação também está inserida na lógica econômica das plataformas digitais. De acordo com Rodrigo, o engajamento dos usuários está relacionado a um sistema que transforma atenção e interação em valor.
Assim, aquilo que começa como uma relação baseada em identificação, diversão e pertencimento também movimenta números, plataformas e o próprio mercado da música.
No caso de Ingrid, porém, a relação com o fandom vai além desses números. Depois de mais de dez anos acompanhando o BTS, fazer parte do ARMY se tornou uma experiência ligada à própria trajetória pessoal.
“Hoje, ser army representa muito mais do que simplesmente gostar de um grupo: é uma experiência que acabou fazendo parte da minha própria história.”

